quinta-feira, 8 de setembro de 2011

A APARIÇÃO





Relatos dão conta que um octoplasma  vive a arrastar sacos de latinhas pela casa.  Sobre essa estranha figura, sabe-se que morou há muito tempo  neste lugar. Pode ter escapado de um sanatório.   Da sua exemplar história de vida, é conhecido o fato de que trabalhava 24 horas por dia sem descanso  em troca de uma tijelinha de miojo. Da culinária oriental, era hábito preparar  um ensopado de cabeça de peixe podre.   Dois foram os princípios cristãos que moldaram sua maneira de ser: a mentira e a leviandade.  Acalentava um sonho irrealizável: aprender a ler e escrever corretamente.  O que lhe faltava em estatura, sobrava de língua comprida. Não dava dez que passos que não fizesse um mexerico.  Adorava falar tolices. A especialidade era difamação e a calúnia.   Seu círculo de amizades compunha-se de dejetos urbanos:  mendigos, flanelinhas, carroceiros, camelôs e seguranças de porta de puteiro. Tudo pilantra. Tudo malandro. Boca aberta como uma caçapa, a estes tudo contava em detalhes. Resultado: assalto à mão armada; arrastão.  Parvoíce incurável.  Acho que não se prestou nem para cumprir com suas obrigações conjugais.  Guardava consigo um segredo inconfessável. Sabia que velhacaria tinha nome : Itsuko Sato.   Quando já parecia um epitáfio, era a responsável por tirar a paz da maloca.  Antes de morrer de peçonha, sofria de um estropiamento mental que beirava o interdito. Já nasceu morimbunda das ideias.   Agora, parece vaguear  pelos corredores num retorno melancólico.  Entra e sai, abre e fecha,  anda e  desanda, vira, desvira,  vai e volta, bate portas,  sobe e desce num ir e vir improdutivo. Enrolava.  Fazia tanto  barulho quanto um canteiro de obras, embora nada edificasse. Recolhia quinquilharias e tralhas sem valor pelas ruas.  Colecionava bugigangas.  Tivesse tido filhos, não hesitaria em forçá-los a catar lixo e a pedir esmolas. Se o espectro assombratório encontrasse  com um desafortunado pelo caminho, desfiava um rosário de miséria, dor e agonia.  Um estorvo que ambulava.  Aguentem ! 
 Acredita-se que o corpo esteja enterrado sob os alicerces da velha construção.
Louca do caralho !

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